O suposto "Clássico Uruguaio" do Amazonas

    Em 2011, quando o Penarol decidiu os dois turnos do estadual contra o Nacional, ganhando um e perdendo outro, e consequentemente disputando a final geral contra o mesmo Nacional, a imprensa passou a classificar o confronto como "Clássico dos Leões" (o que ao meu ver é uma baita forçada na barra). O Penarol ingressou no futebol profissional em 1980. Na época ele fazia parte da "triade" do futebol amador de Itacoatiara, ao lado de Náutico e Brasil. Este último foi o primeiro a ensaiar o ingresso no estadual, em 1970, mas acabou barrado. O Penarol entrou e ficou até 92, quando se licenciou por um longo período, voltando apenas em 2007 junto com a Segunda Divisão. Abraçado pela cúpula do município e pela população, o "Leão da Velha Serpa" logo  voltou à elite estadual, conquistando o acesso em 2008. Na Primeira Divisão, depois de uma campanha modesta em 2009, em 2010 e 2011 o clube foi campeão. 

    Com o destaque regional, logo inventaram um clássico do clube com quem estivesse em maior equilíbrio, no caso, o Nacional. A imprensa local - como sempre - inventou um nome para o confronto que passaram a alcunhar de clássico: O "Clássico dos Leões" (as duas equipes tem o mesmo mascote). Mas o pior foi quando a imprensa de fora inventou que o confronto (agora clássico) tinha uma suposta "inspiração" no futebol uruguaio (a origem da leseira deve ser essa matéria: 'Clássico uruguaio' agita a decisão do Campeonato Amazonense | globoesporte.com). Depois daí, houve um esforço danado, até de locais, em sustentar a ideia de que realmente havia uma ligação desse ou daquele clube com o futebol do Uruguai... 

    Reconhece-se que o nome Penarol logo deve remeter ao Peñarol do Uruguai (alguns pesquisadores teimam em usar o til no nome da equipe amazonense, forçando essa associação) mas a verdadeira origem do nome da equipe de Itacoatiara remete ao Peñarol de Fortaleza (esse sim usa o til), que esteve no Amazonas em excursão, nos anos 40, década de fundação do clube amazonense. Conta a história que as cores e o mascote se deram em alusão ao próprio Nacional de Manaus, que contou com jogadores itacoatiarenses em anos anteriores. 

    Por falar em Nacional, o clube da capital baré também em nada quis homenagear qualquer outro clube. O nome do clube remete ao time que se formou pensando em ser uma espécie de seleção de jogadores brasileiros do futebol manauara, que inicialmente se chamou Onze Nacional. Na época o futebol de Manaus estava repleto de estrangeiros como ingleses (que fundaram o Manáos Athletic) e portugueses (fundaram o Luso e a União Esportiva Portuguesa, essa que se originou da fusão do primeiro clube chamado Vasco da Gama do país com o Onze Português). Ou seja: o nome do clube remete apenas a uma equipe apenas com jogadores brasileiros. Não foi homenagem ao Nacional do Uruguai, nem a nenhum outro.

    Então! Não existiu nada além de mera coincidência. E é Penarol, sem til e sem agá!

As decisões entre os "Leões do Amazonas" após a volta do Penarol em 2007:

  • Semifinal da Taça Cidade de Manaus de 2010 - Penarol classificado por melhor campanha após empate em 1x1 no Floro de Mendonça (Penarol veio a ser o campeão);
  • Final da Taça Estado do Amazonas em 2011 - Penarol venceu por 2x1 em casa (campeão do turno);
  • Final da Taça Cidade de Manaus em 2011 - Nacional vence nos pênaltis por 6x5 após empate em 2x2 no Floro de Mendonça (campeão do turno);
  • Final do Campeonato de 2011 - Após empate em 1x1 no Estádio do SESI e 1x1 no Floro de Mendonça, a decisão foi para os pênaltis, onde o Penarol saiu campeão com vitória por 4x3 (Penarol campeão);
  • Semifinal da Taça Cidade de Manaus de 2013 - Nacional se classifica após vitória por 3x0 (no SESI) e 4x0 (no Floro) - O Nacional veio a ser vice-campeão;
  • Semifinal do Campeonato de 2015 - Nacional se classifica após vitória 2x0 (no Floro) e derrota por 3x2 (na Colina) e depois se tornou o campeão estadual

    É inegável que após seu retorno, o Penarol protagonizou grandes decisões contra o Nacional, acirrando a rivalidade entre as torcidas, com o já tradicional "bota fogo" da imprensa local. Mas não podemos esquecer que o Fast Clube também vinha muito forte naqueles anos e foi vice-campeão na ocasião do primeiro título do Penarol.

    Nos confrontos decisivos (independente de 1 ou 2 partidas), o Penarol se deu melhor em 3 e o Nacional em outras 3. Vale lembrar também, que possivelmente das mesmas  mentes criativas que inventaram o "Gavionça" e o "Pri x Nal", este confronto chegou a ser alcunhado de "Penaça". Ainda bem que não colou!

Dados do confronto:

  • Jogos - 71
  • Vitórias / Gols do Nacional - 36 / 117
  • Vitórias / Gols do Penarol - 15 / 60
  • Empates - 20
    Após o retorno do Penarol em 2007, o confronto se tornou muito mais equilibrado, de certo modo, com mais cara de "clássico" embora eu seja mais conservador em usar este termo:
  • Jogos - 34
  • Vitórias / Gols do Nacional - 13 / 48
  • Vitórias / Gols do Penarol - 11 / 37
  • Empates - 10
    No período de 1980 (quando o clube da Velha Serpa estreou como profissional) até 1993 (quando o Penarol disputou o último campeonato antes do longo afastamento) a diferença era muito maior:
  • Jogos - 34
  • Vitórias / Gols do Nacional - 23 / 71
  • Vitórias / Gols do Penarol - 04 / 26
  • Empates - 10
    Então, observa-se que, no segundo momento de sua história no estadual, o Penarol foi um duro adversário para o Nacional, durante seu auge e também depois.

Fontes: Jornais A Crítica, A Tarde, Em Tempo, Diário do Amazonas, Jornal do Comércio; Revista Placar, Federação Amazonense de Futebol. Complemento de dados com: RSSSF, Bola na Área, Baú Velho de Carlos Zamith.

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