Motor: o transporte do interiorano

 

Recreios na região do porto da Manaus Moderna (Foto: do Autor)

    Os recreios, que também são popularmente conhecidos como "motor" ou apenas barco, são o principal meio de transporte do amazonense, principalmente os interioranos e ribeirinhos, sendo uma figura tradicional na paisagem da beira (margem de rio) das cidades do Amazonas. Neles são transportadas milhares de pessoas e muita carga, saindo de Manaus e também chegando, vindo dos interiores do Amazonas e do Pará. 

    

O belo motor Comandante Oliveira IX, que faz linha para Carauari. (Foto: do Autor)

    Os barcos para longas viagens costumam ter três pisos, além do "porão". No porão, além do motor da embarcação, geralmente leva-se carga e algumas vezes se alojam os braçais. O "primeiro piso" pode trazer passageiros e pode trazer cargas, o segundo geralmente é apenas para passageiros, e o terceiro geralmente possui um bar/lanchonete e serve como uma área de lazer para os viajantes. De forma geral, há banheiros distintos para homens e mulheres em todos os pisos. Dependendo da embarcação, tem uma cozinha e uma área para refeições na popa, e a sala do condutor e camarotes na proa, que é mais apontada de forma a cortar as águas com mais facilidade.

    Os passageiros tradicionalmente dormem em redes que são amarradas (ou atadas, como é tradicional falar) em suportes no teto de cada piso. São oferecidas refeições aos passageiros, sendo que, dependendo do barco, pode ser almoço, jantar e merenda.

Um "motor" pequeno e anônimo que registrei em Urucará/AM (Foto: do Autor)

    Pescadores e ribeirinhos, que viajam entre lagos e comunidades, costumam ter uma versão reduzida de "motor" que é mais simples e menor, construída diretamente no casco. Em muitos casos andam com canoas ou botes de suporte amarrados em sua popa.

Em frente a Urucará: um barco com antena parabólica (Foto: do Autor)

Este mais à esquerda serve para transportar gado. Escadaria em Urucará (Foto: do Autor)

 
O motor J. Candido XII, aportado em São Sebastião do Uatumã (Foto: do Autor)

        Como pode ser observado acima, os motores regionais possuem inúmeros pneus em suas laterais, que servem como defensas para amortecer possíveis impactos. Nunca vi outro tipo de defensa nos motores amazonenses. No mastro há luzes que sinalizam aos navios próximos a direção que um navio navega.
Configuração do mastro de um "motor" de médio porte. (Foto: do Autor)


Sempre há uma bandeira do estado na proa ou na popa, as vezes nos dois e até no mastro. (Foto: do Autor)

A Bolacha de motor 

   Os motores são parte da cultura amazonense e formam tradições. Temos uma bolacha água e sal produzida em Manaus pela fabricante Modelo, que foi fundada pelo português Américo Rodrigues Esteves, que tornou-se parte da culinária amazonense, sendo muito apreciada pelos locais, principalmente nos interiores. É tradicionalmente muito consumida nas viagens de motor, seja em viagens dos ribeirinhos entre suas comunidades ou em viagens longas, fazendo da associação algo tradicional e enraizado na cultura amazonense, se tornando a popular Bolacha de Motor. 

Um pacote de bolacha de motor (Instagram: 

bolachamodelo

)

Caravanas

    Em época de festas nos diversos municípios, os motores são usados para formar as caravanas de festeiros que seguem até os locais de festas, essas caravanas podem sair da cidade pra uma comunidade ou pra outra cidade, trazendo consigo que quiser se juntar e estiver pelo caminho. Muitas das vezes os motores saem superlotados com pessoas em pé, o que pode ser um grande risco, embora seja tradição no Amazonas, já que não há grande fiscalização naval nesses tipos de viagens, que geralmente são curtas e geralmente envolvem municípios limítrofes (exceto grandes eventos como o Festival de Parintins). Em época de fim de ano e eleições municipais (no interior do Amazonas se trata de política com a mesma rivalidade de que se trata no futebol), com grande movimentação, são os motores que carregam parte da população amazonense de norte a sul e leste a oeste do estado, uma vez que há poucas cidades conectadas por estradas.

Motor Parintins levando a Raça Azul, torcida organizada do Caprichoso, para o festival de Parintins (Foto: Lucas Silva/ Amazonastur)


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